A Rede Energia & Comunidades publica dois estudos que examinam condições de acesso à energia elétrica em territórios tradicionais no Brasil e apresentam recomendações para o aprimoramento das políticas públicas do setor.
As publicações foram elaboradas pelas organizações integrantes da Rede, e serão apresentadas em 30 de março, em evento híbrido com transmissão on-line promovido em parceria com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em Brasília.
Os relatórios — Contribuições para o aperfeiçoamento do programa Luz para Todos em territórios tradicionais e Contribuições para o aperfeiçoamento do programa Luz para Todos em territórios extrativistas marinhos — abordam, respectivamente:
Territórios indígenas e quilombolas na Amazônia
Comunidades extrativistas no litoral sul da Bahia
O primeiro estudo teve coordenação técnica do IEMA. O segundo foi conduzido pelo WWF-Brasil com apoio da Associação Mãe dos Extrativistas da Reserva Extrativista de Canavieiras (AMEX). As pesquisas reúnem dados de campo, escutas comunitárias e diálogos institucionais com órgãos públicos, agências reguladoras e lideranças locais.
Os estudos apresentam medidas voltadas ao aperfeiçoamento do programa e à ampliação do acesso regular à energia elétrica:
Ampliação da Tarifa Social de Energia Elétrica, com regularização do CadÚnico
Inclusão das comunidades em cronogramas públicos de atendimento
Implantação de sistemas fotovoltaicos com capacidade compatível às demandas locais
Fortalecimento da rede elétrica existente e regularização de ligações precárias
Formação de agentes comunitários de energia
Integração com políticas de saúde, educação, saneamento, conectividade e inclusão produtiva
Fortalecimento da fiscalização do serviço prestado pelas distribuidoras
Ampliação da participação social, com garantia de consulta prévia, livre e informada
O primeiro relatório apresenta recomendações para ampliar o acesso à energia elétrica pública em territórios indígenas do Xingu (MT) e em comunidades quilombolas de Abaetetuba (PA). O trabalho foi realizado entre março e agosto de 2025, com foco em 12 povos do Território Indígena do Xingu e nos territórios quilombolas de Bom Remédio e Ramal do Piratuba, no Pará.
As atividades de monitoramento e avaliação contaram com a participação de representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), da Aneel, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ministério da Igualdade Racial, além de lideranças comunitárias.
Foram registradas ocorrências relacionadas à implantação dos sistemas elétricos, à comunicação institucional com as comunidades e a aspectos técnicos do fornecimento. Em parte das localidades do Xingu, por exemplo, foram instalados sistemas com tensão de 127 V incompatível com equipamentos historicamente adaptados para 220 V.
O segundo relatório analisou a situação de aproximadamente 2.600 famílias na Reserva Extrativista Marinha de Canavieiras, território com mais de 100 mil hectares no litoral sul da Bahia. A pesquisa de campo foi realizada em novembro de 2025, com participação de representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do MME e da Aneel.
O levantamento identificou três situações predominantes:
Comunidades sem acesso à energia elétrica
Comunidades com fornecimento precário e instável
Famílias atendidas por sistemas fotovoltaicos de baixa capacidade, suficientes principalmente para iluminação
A limitação de acesso à energia está associada a efeitos sobre atividades produtivas e condições de armazenamento de alimentos. A ausência de refrigeração adequada leva parte dos pescadores a utilizar gelo para conservação do pescado, o que eleva custos operacionais e reduz margens de comercialização. Em alguns casos, foram relatados deslocamentos para centros urbanos relacionados às condições de infraestrutura.
Os estudos também registram iniciativas positivas em cursos. Em comunidades como Campinhos, o programa Luz do Povo, que prevê gratuidade integral da conta de energia para famílias com consumo de até 80 kWh por mês, com isenção de tarifas e tributos, já está vigorando.
Outro ponto observado foi o teste do aplicativo do programa Luz para Todos, desenvolvido pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) em parceria com o MME, voltado à identificação de residências sem acesso à energia elétrica. A ferramenta apresentou funcionamento em áreas sem conexão à internet e tem lançamento previsto para este semestre.
Os diagnósticos produzidos contribuíram para o desenho inicial do Sandbox Regulatório Energias da Floresta, iniciativa da Aneel em cooperação com o IEMA e outras organizações. A proposta envolve a testagem de soluções para ampliar e qualificar o acesso à energia em territórios remotos e tradicionais, com desenvolvimento de modelos técnicos, regulatórios e de gestão ajustados a contextos locais.
As publicações situam o acesso à energia elétrica como componente das políticas de infraestrutura e como condição associada a serviços essenciais e atividades econômicas nos territórios.
Ao sistematizar dados empíricos e recomendações operacionais, os estudos oferecem subsídios técnicos para o aprimoramento de políticas públicas voltadas a povos e comunidades tradicionais.
Acesse os relatórios completos e acompanhe as iniciativas da Rede Energia & Comunidades.
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