A Rede Energia e Comunidades te ajuda a entender!
Você já passou dias respirando a fumaça das queimadas? Já viu o rio baixar tanto que o barco não conseguia passar, a água potável acabar ou o peixe estragar por falta de gelo? Já levou um susto com a conta de luz ou com o preço do diesel do gerador? Tudo isso tem a ver com energia e clima. E, nestas eleições, também tem a ver com o seu voto.
A energia representou 69% das atividades que mais emitiram gases de efeito estufa (GEE) no planeta em 2024 (UNEP, 2025). Esses gases absorvem e retêm calor, contribuindo para o aquecimento global. Nesse contexto, a energia está muito à frente dos demais setores (como agropecuária, processos industriais, uso e mudança no uso da terra e florestas, tratamento de resíduos e outros). Com isso, houve aumento de 1% em relação a 2023 (UNEP, 2024), fazendo com que seja ainda mais difícil que a meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5ºC comparado aos níveis pré-industriais, seja atingida.
A transição energética é a principal estratégia para permitir o desenvolvimento econômico e combater os efeitos negativos das mudanças climáticas (UNEP, 2023). De maneira mais simples, a transição energética busca reduzir o uso de combustíveis fósseis, aumentando o uso de energias renováveis, aquelas que são geradas a partir de recursos naturais e se renovam ao longo do tempo de forma superior ao seu consumo. Outras medidas que os Estados devem adotar são:aumentar a eficiência energética, ou seja, gerar a mesma quantidade de energia com menos recursos naturais; e modernizar redes elétricas, para que sejam adaptadas à realidade das fontes renováveis (UNEP, 2023).
Apesar de os países saberem dessas necessidades, muitos não avançaram em seus compromissos para a redução do uso de combustíveis fósseis, mantendo subsídios à exploração de recursos energéticos, como petróleo e gás natural, e investindo de forma insuficiente em infraestrutura elétrica, armazenamento de energia e eficiência energética (UNEP, 2024).
A energia limpa nem sempre chega aos territórios também. Muitas aldeias e comunidades da Amazônia ainda dependem de geradores a diesel, que são caros, poluem, fazem barulho e ficam sem combustível quando o rio seca e o barco não passa. Quando a seca atinge os reservatórios das hidrelétricas, o país aciona mais usinas termelétricas, que são mais caras e poluentes, e a conta de luz de todo mundo sobe.
O Brasil se destaca na corrida pela transição energética por ser um dos principais líderes em geração de energia renovável no mundo, com 86,8% da energia gerada a partir de fontes limpas em 2025 (EPE, 2026). Entre as fontes que mais cresceram encontram-se a energia eólica (+8,2%) e termelétrica (+12,3%) (EPE, 2026). Apesar desse cenário otimista, de 2024 para 2025 também houve crescimento da oferta interna de energia a partir de combustíveis fósseis (+3%), considerando petróleo e derivados, gás natural, carvão mineral, urânio e outras fontes (EPE, 2026). Trata-se de uma escolha política, que envolve os setores público e privado, mas também de universidades, das comunidades e de toda a sociedade.
Em 2025, mais de 336 mil brasileiros foram afetadas pelas mudanças climáticas (Cemaden, 2026), a partir de diferentes tipos de desastres hidrometeorológicos, como:
chuvas intensas, ventos e granizo, ocasionando deslizamentos de terras, transbordamentos de cursos d´água, cheias, enxurradas (Agência Brasil, 2026), entre outras consequências;
intensas ondas de calor, causando secas e queda de umidade, com impactos relacionados à desidratação, ao agravamento de doenças e ao aumento da mortalidade, afetando principalmente idosos, crianças e pessoas vulneráveis (ASBAI, 2023); e
sequência de tornados e ciclones extratropicais, provocando rajadas de vento intensas (Cemaden, 2026) e diferentes prejuízos nas cidades e no campo.
Ressalta-se que tanto o extremo de secas, quanto o extremo de chuvas tem potencial para alterar colheitas e a produção de alimentos, cujas consequências estão relacionadas ao aumento de custo dos alimentos e à insegurança alimentar (Tanure et al., 2020).
Ainda, de acordo com o Atlas Digital de Desastres no Brasil, somente em 2025, os danos humanos somaram 410.220 desabrigados, 79.110 feridos e enfermos, 13.360 diretamente afetados e 87 óbitos. Além de danos materiais, estimados em R$ 4,92 bilhões, prejuízo para os cofres públicos de R$ 3,23 bilhões e prejuízo para o setor privado de R$ 34,41 bilhões (Atlas Digital de Desastres no Brasil, 2025).
Em 2024, sob impacto de um El Niño, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico que costuma trazer secas ao Norte e ao Nordeste e chuvas ao Sul, 69% dos municípios da Amazônia Legal foram atingidos por secas históricas (InfoAmazônia, 2024), ocasionando a morte de botos e peixes, além do aumento de queimadas e incêndios (IREE, 2026). Outros efeitos foram o aumento de 19% nos alertas de degradação florestal, sendo que até 4,2 milhões de hectares foram impactados pelo fogo (Agência Fapesp, 2026).
Na Amazônia, quem vive nos territórios conhece bem essa realidade. Em 2024, sob efeito do El Niño, 69% dos municípios da Amazônia Legal enfrentaram secas históricas. Botos e peixes morreram e as queimadas e os incêndios aumentaram. Os alertas de degradação florestal cresceram 19%, com até 4,2 milhões de hectares atingidos pelo fogo.
Para o fim de 2026 e início de 2027, os estados da Amazônia Legal podem sofrer com o atraso do início de chuvas e continuidade de temperaturas acima da média (Agência Fapesp, 2026). De acordo com estudo publicado no International Journal of Climatology, o aumento do estresse hídrico (quando a disponibilidade de água é menor que a demanda) na região amazônica pode “produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global” (Agência Fapesp, 2026).
Do mesmo modo, as mudanças climáticas somadas ao aumento de temperaturas, ocorrência de secas e incêndios florestais podem levar a Floresta Amazônica a um ponto de não retorno (Brandão; Arieira; Nobre, 2024), que é quando a floresta perde a capacidade de se regenerar sozinha.
Para que isso não aconteça existem caminhos. Os governos precisam adotar medidas de mitigação, que reduzam as emissões, e de adaptação, que preparem as pessoas e os territórios para conviver com os impactos que já estão acontecendo, além de soluções baseadas na natureza, que usam a floresta e os rios a nosso favor.
Na prática, isso significa:
Muitas dessas soluções já existem nos territórios. Povos indígenas, ribeirinhos, extrativistas e quilombolas praticam formas de adaptação há gerações, como o manejo da pesca, as roças sem fogo e as casas preparadas para a cheia. As políticas públicas precisam reconhecer esses saberes e construir soluções em conjunto com as comunidades.
Nada disso acontece sem vontade política, e vontade política também se constrói com o voto. Antes de escolher seu candidato, pergunte:
se seu candidato se compromete com a proteção dos territórios, como a demarcação de terras indígenas, titulação de territórios quilombolas, criação e fortalecimento de unidades de conservação e reservas extrativistas, além do combate ao desmatamento, às queimadas, ao garimpo ilegal e à grilagem;
Lembre que cada cargo tem atribuições diferentes. Presidente e Governadores definem investimentos e políticas de energia e clima. Senadores e Deputados Federais e Estaduais aprovam leis e orçamentos e fiscalizam o Poder Executivo. Assim, você sabe de quem cobrar depois da eleição.
A plataforma https://votepeloclima.org/, iniciativa que conta com organizações-membro da Rede Energia & Comunidades, foi criada para facilitar o encontro de pessoas que estão comprometidas com o clima, o meio ambiente, as aldeias e comunidades.
Em outubro, a seca, a fumaça e a conta de luz também estarão na urna. Converse com seus amigos, vizinhos, colegas e familiares e escolha quem cuida da floresta, dos rios e da energia que chega à sua casa. O futuro do planeta também se decide no seu território.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas no país, em 2025. Brasília/DF: Agência Brasil, 2026.
AGÊNCIA FAPESP. Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas. São Paulo: Agência FAPESP, 2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOLOGIA. Ondas de calor – como ela afeta a saúde humana, de plantas e animais. [s.l.]: ASBAI, 2023.
ATLAS DIGITAL DE DESASTRES NO BRASIL. Dashboard: 2025. Brasil: Atlas Digital de Desastres no Brasil, 2026.
BRANDÃO, Diego Oliveira; ARIEIRA, Julia; NOBRE, Carlos A. Impactos das mudanças climáticas na sociobioeconomia da Amazônia. Estudos Avançados, v. 38, n. 112, 2024.
CENTRO NACIONAL DE MONITORAMENTO E ALERTAS DE DESASTRES NATURAIS. Estado do clima, extremos de clima e desastres no Brasil em 2025. São José dos Campos: Cemaden, 2026.
EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. BEN: Relatório Síntese 2026 (Ano base 2025). Brasília/DF: EPE, 2026.
INFOAMAZÔNIA. Seca atinge 69% dos municípios da Amazônia em 2024. [s.l.]: InfoAmazônia, 2024.
INSTITUTO DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE. Políticas públicas e experiências de acesso à energia: da agenda internacional às soluções comunitárias na Pan-Amazônia. São Paulo: IEMA, 2026.
INSTITUTO DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE. Projeto Energias da Floresta: Curso piloto forma agentes comunitários de energia na Amazônia e fortalece gestão comunitária de sistemas solares. São Paulo: IEMA, 2025.
INSTITUTO REPÚBLICA E ESTADO. Situação da Amazônia merece atenção. São paulo: IREE, 2026.
TANURE, Tarik Marques do Prado, et al. The impacts of climate change on agricultural production, land use and economy of the legal Amazon region between 2030 and 2049. EconomiA, v. 21, p. 73-90, 2020.
REDE ENERGIA E COMUNIDADES. Contribuições para o aperfeiçoamento do Programa Luz para Todos em Territórios Tradicionais. [s.l.]: REC, 2026.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Emissions Gap Report 2023: Broken Record – Temperatures hit new highs, yet world fails to cut emissions (again). Nairobi: UNEP, 2023.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. No more hot air… please! With a massive gap between rhetoric and reality, countries draft new climate commitments. Nairobi: UNEP, 2024.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Off target: Continued collective inaction puts global temperature goal at risk. Nairobi: UNEP, 2025.
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