Universalização no papel, exclusão no território.

Quase 100% de energia no papel. E nas aldeias, na floresta e no campo, quanta gente ainda está de fora?

No papel, a conta fecha. Em 2022, 99,8% dos domicílios do país tinham eletricidade, e no campo o índice era de 99%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dados divulgados pela Exame/PSR Energia. O Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica – Luz para Todos, programa que levou energia a áreas rurais e isoladas, beneficiou cerca de 18 milhões de pessoas. É um avanço real, e ninguém discute isso. Poucas políticas públicas chegaram tão longe em tão pouco tempo.

O problema é que uma média nacional não mostra quem ficou de fora. Quando um país chega perto dos 100%, o que sobra é pouco em termos percentuais, mas muito em termos de gente. O próprio governo reconhece que ainda existem cerca de 238 mil famílias sem energia elétrica, sobretudo em áreas rurais e em regiões remotas da Amazônia Legal. Em maio de 2026, o Ministério de Minas e Energia, em informação divulgada pela Agência Gov, anunciou que o Luz para Todos seria ampliado até 2028 para tentar alcançar quase 1 milhão de brasileiros que ainda estão sem acesso. Ou seja: o programa que deu certo em quase todo lugar ainda não terminou o trabalho, e justamente os territórios mais distantes são os últimos da fila.

Quem cuida da floresta está entre os que mais sentem essa ausência. De acordo com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA, 2025), mais de 84 mil estabelecimentos extrativistas na Amazônia Legal estão sem nenhum acesso à energia elétrica. Em Roraima, são 74% dos estabelecimentos; no Amazonas, 66%; e no Pará, 45%. São famílias que vivem do que a floresta oferece e ajudam a mantê-la em pé, mas trabalham e vivem sem a infraestrutura que o resto do país já considera básica.

Nas aldeias, a luz também não chegou para todos. Na Amazônia, estima-se que 19% das pessoas que vivem em terras indígenas estejam sem energia elétrica, o que corresponde a cerca de 78 mil indígenas sem energia pública. A falta de energia não se resume ao escuro à noite. Sem energia, falta água limpa, e isso afeta diretamente a saúde da comunidade. É uma cadeia: sem luz, não há bombeamento, tratamento nem armazenamento adequados, e o que parece um problema de infraestrutura vira um problema de saúde, de educação e de permanência no território. Esses dados são do IEMA (2019) e foram discutidos no II Encontro Energia e Comunidades (2019).

Existe caminho. No Xingu, aldeias da Volta Grande já recebem energia solar, o que mostra que há alternativas à extensão da rede convencional, especialmente em lugares de difícil acesso. Mas a solução técnica não basta. Cada povo tem o direito de decidir como quer essa energia, e quem não quer eletricidade deve ter sua vontade respeitada. Levar energia a uma comunidade sem ouvi-la é repetir, com outra roupa, a lógica de decidir de fora o que é bom para quem vive dentro.

A falta de energia também tem um custo econômico, que recai sobre quem produz. Cerca de 30% do açaí da Amazônia Legal vem de estabelecimentos sem energia pública (IEMA, 2025). Sem refrigerador para conservar a fruta e sem máquina de beneficiamento, o produtor vende o açaí in natura, ganha menos e depende do atravessador. O valor que poderia ficar na comunidade, com polpa processada e venda direta, acaba ficando no meio do caminho. Nesse caso, a falta de energia aprofunda a desigualdade na ponta mais frágil da cadeia.

Há ainda uma contradição de fundo. Em 2020, os estados da Amazônia geraram 25,7% da energia do país, mas consumiram só 8,4%. A região produz energia para o Brasil, mas muitos dos que vivem nela não se beneficiam do que é gerado ali. Cerca de 3 milhões de pessoas vivem em sistemas isolados ou dependem de combustíveis fósseis caros e poluentes, o que significa pagar mais por uma energia pior. Os dados são de Uma Concertação pela Amazônia e do IEMA (2026 e 2025). Por isso, o desafio vai além de ligar a rede: é preciso energia de qualidade e em quantidade suficiente para garantir direitos básicos.

Universalizar não é só ligar um fio. É escutar quem vive no território, formar gente da própria comunidade para cuidar da energia e garantir tarifa justa, para que a luz que chega não vire uma conta impossível de pagar. Energia é direito, não favor.

Referências

AGÊNCIA GOV. Ampliação do Luz para Todos reforça acesso à energia na Amazônia Legal. Brasil: Agência Gov, 2026. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202605/amplia-luz-para-todos-reforca-acesso-a-energia-na-ama…. Acesso em: 14 out. 2026.

CANAL SOLAR. Dia Internacional dos Povos Indígenas: necessidade de energia limpa. [s.l.]: Canal Solar, 2024. Disponível em: https://canalsolar.com.br/dia-internacional-povos-indigenas-energia/. Acesso em: 14 out. 2026.

DIÁRIO DO PARÁ. No escuro: 30% do açaí amazônico é produzido sem acesso a energia. Pará: Diário do Pará, 2026. Disponível em: https://diariodopara.com.br/para/no-escuro-30-do-acai-amazonico-e-produzido-sem-acesso-a-energia/. Acesso em: 14 out. 2026.

EIXOS. Roraima, Amazonas e Pará lideram exclusão elétrica de extrativistas, aponta IEMA. [s.l.]: Eixos, 2025. Disponível em: https://eixos.com.br/energia-eletrica/roraima-amazonas-e-para-lideram-exclusao-eletrica-de-extrativistas-aponta-iema/. Acesso em: 14 out. 2026.

EXAME. Amazônia Legal: energia quase universal, mas ainda distante de ser igualitária. [s.l.]: Exame, 2025. Disponível em: https://exame.com/esg/amazonia-legal-energia-quase-universal-mas-ainda-distante-de-ser-igualitaria/. Acesso em: 14 out. 2026.

INSTITUTO DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE. Amazônia Legal: quem está sem energia elétrica. São Paulo: IEMA, 2022. Disponível em: https://energiaeambiente.org.br/rural-settlements-indigenous-lands-and-protected-areas-are-among-the-territories-without-access-to-public-electricity-in-the-amazon-20220621. Acesso em: 14 out. 2026.

PODER360. Quase 1 milhão não têm acesso à energia elétrica na Amazônia Legal. [s.l.]: Poder360, 2019. Disponível em: https://www.poder360.com.br/brasil/quase-1-milhao-nao-tem-acesso-a-energia-eletrica-na-regiao-da-amazonia-legal/. Acesso em: 14 out. 2026.

PORTAL AMAZÔNIA. Três em cada 10 quilos de açaí na Amazônia Legal são de extrativistas sem acesso à eletricidade. [s.l.]: Portal Amazônia, 2026. Disponível em: https://portalamazonia.com/meio-ambiente/acai-amazonia-eletricidade-iema/. Acesso em: 14 out. 2026.

PORTAL TELA. Exclusão energética na Amazônia: 3 milhões dependem de fósseis. [s.l.]: Portal Tela, 2026. Disponível em: https://www.portaltela.com/noticias/economia/2026/05/22/exclusao-energetica-na-amazonia-3-milhoes-dependem-de-fosseis-pagam-mais/. Acesso em: 14 out. 2026.

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